Tão mortal quanto eterno

Gregório para a mãe, Gregory para o pai, Greg para mim. Únicamente para mim, como eu gostava de chamar. Ele gostava de pessoas, mas se mantinha longe delas, futuro sociólogo, latim, inglês, alemão, português. Falávamos na nossa língua, a língua que desenvolvemos assim que nós enxergamos á primeira vez. Era tão moralmente nosso, todo aquele pedaço de mundo que chamávamos de nós.
"Esqueça os mortos, eles não levantam mais" diz á música, lembre-se dele mas não deixe de viver com todo o amor e intensidade.
Desde pequena me foi ensinado nunca errar, mas agora então percebo que os erros são os melhores e mais prazerosos acertos que eu já cometi.
- Inconsequente, é do que sempre me chamam.
- Só por que não pensa como o resto? Ah. Nada faz sentido para mim, eu só gostei de você, tenho muitos amigos, mas eles não sabem conversar, só querem beber.
- Algo melhor que beber?
- Sexo, músicas boas, café, cigarros, quando eu saio com a minha moto e sumo por um bom tempo.
- Não tem medo de morrer?
- Morte? Isso não existe.
- Também gosto de sexo.
- Hã?
- Disse que gosto do sexo.
- Não imagino isso vindo de ti.
- Só não pratico, dizem que sou propícia á me viciar.
- É uma droga boa.
Droga boa eram nossas conversas sobre seres mágicos, droga boa eram seus abraços e o seu cheiro de liberdade. Greg cheirava á liberdade, cheiro do perfume europeu, cigarro antes de ser queimado, couro, flores do campo e cappuccino blueberry. Em dias ruins tinha gosto de conhaque, em dias bons de biscoito.
- Quando eu for embora..
- Você não vai! - Me interrompia
- Mas só faz um dia que estou aqui.
- E?
Complicado de mais para mim, eu gostava de desvendar, quando tocava piano e sorria para as notas que dançavam pela sala minha vontade de estar ali crescia. Eu fui para a casa pela manhã, todos os dias que estive ali, para me tratar da súbita depressão foram gastos com Gregório e seus caprichos, minhas manias e nossas vontades. E eu não poderia enxergar tratamento melhor.
O tempo foi tão breve, os dias tão quentes e não parava de nevar. Eu gostaria tanto de viver naquilo.
- Amanhã eu pego o avião, Greg.
- Tá bem.
- Não vai lamentar?
- Eu? Não. - Ele sorria.
- Não sorria, eu vou embora.
- Prometa voltar.
- Prometa ir me ver.
"Prometo" foi o que falamos juntos. Ele me carregou e me pôs em cima da motocicleta, eu não entendo de motos, entendo de poemas, mas aquela tinha jeito de Greg, tinha amor nos olhos dele e grosseria no ronco dela.
- Então, te busco que horas?
- Mas tenho que arrumar minhas coisas para ir.
- Arrume e eu lhe pegarei quando todos estiverem dormindo, passe a noite com o seu melhor amigo de um mês. Amanhã te trago e acompanho ao aeroporto.
- Odeio despedidas.
Realmente odeio despedidas, odeio ir embora, odeio que me deixem. Odeio esse melodramatismo que tenho usado para escrever sobre ele. Não devo me culpar, ele era o único que um dia receberia algo assim.
E eu fui embora, sem choro, eu sempre achei que Greg não chorava, só sorria, tinha o sorriso triste, mas não tinha choro.
Odiando tudo aquilo eu parti, me odiando, e quando o avião decolou a depressão tomava conta do meu ser e o conhaque já não estava no meu sangue.


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