Para começar: isto é mortalmente eterno, como todos o poetas

Jamais esquecerei-me do dia em que o vi, aqueles olhos verdes de tão azuis, aquelas sardas quase invisíveis e os cabelos cor-de-fogo. Parecia um brinquedo.
Ele me olhando por trás dos cabelos perguntou se eu fumava, eu disse que sim, mesmo sem vontade nenhuma de fumar, eu não saberia dizer o que era mais quente, o ser olhar gélido, a chama do esqueiro, ou a fumaça do cigarro importado. Ele delicadamente me entregou um cigarro e acendeu. Não tirava os olhos de mim. Naquele instante tive certeza, que não importa o que fosse, seria eterno. 
Horas depois eu já estava ciente da total falta de fé, do seu ateísmo de crer no mundo, sabia de cada cicatriz, das 5 namoradas, da vez que fugiu de casa, ele havia me contato tudo, e á cada poesia que recitava sobre a própria vida me dizia que nunca havia dito nada daquilo para ninguém. 
- E você gosta de motos, pequena?
- Eu detesto motos, é mais por medo, consegue me entender? Adoro adrenalina, mas é tão difícil me arriscar.
- Acho que não entendo, eu vivo por um fio, você também, chega á ser engraçada. 
- Não vejo graça.
E ele sempre ria, ria quando não tinha graça, ria quando eu ria, ele sorria com os olhos e me fazia imaginar por que era tão detestável e deprimente ficar ao seu lado, mas por que eu não pegava um bonde e ia tomar um café. Eu estava em outro país, outro continente, outro lugar, outro mundo, mas eu embarquei no mundo dele, tudo por que aqueles olhos verdes de tão azuis não desgrudavam dos meus. 
- Suba na moto.
- Mas e meu medo?
- Deixe-o aqui. Você é teimosa. 
Eu subi, coloquei um capacete, ele arrancou e me carregou por todo o mundo dele, fomos á bibliotecas, tomamos café blueberry, comemos biscoitos e fumamos. No fim da tarde ele estacionou perto de uma casa de madeira, casa pequena e típica de lugares com neve.
- Bem-vinda á minha toca. 
- Você mora sozinho?
- Não, eu vivo aqui, mas não moro, entende?
- Entendo.
Sorri compreensiva. 
Quando entramos ele me chamou para o quarto. 
- Você bebe?
Eu não respondi, ele tinha tantos livros, tantos discos, tantas histórias em um lugar tão pequeno. Eu me perdi, eu não queria deixá-lo, eu não poderia. 
Ele me serviu conhaque, ficamos á noite acordados, vimos a neve cair e ele prometeu me levar pela manhã.
- Por que saiu do Brasil e veio parar aqui?
- Acham que sou louca.
- Então está no lugar certo, eu também sou.
- Querem me curar.
- Não precisa de cura. Precisa de música boa, de café, cigarros e aposto que precisa de amor.
- Amor é ilusão. Preciso de Whisky.
Eu nunca esquecerei aquelas mãos, do meu mais novo melhor amigo, das confidencias, dos abraços, nunca me esqueceria, e escrevo agora, como se ele um dia fosse ler.
Mas vou levar para sempre, quando eu morrer, entrarei no lugar aonde pessoas loucas ficam, vou entregar todas as cartas que não chegaram, vou perguntar por que me abandonou. E vou dizer: Ainda bem que é eterno desde o dia em que te vi, pequeno dragão, ainda bem que não vou te perder, por que como prometi: eu sempre estarei aqui. 
- Me esquente.
- Pra sempre.
- Que coisa gay. - Eu dizia.
- Você é um homem.
- Você é estranho. 



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