Desculpe, mãe, eu só vou ali mudar o mundo.
Eu não planejei como seria, eu não sabia que não seria como havia sido planejado pelos meus pais. Ninguém poderia esperar, ninguém mesmo, nem eu mesma. Nunca pensei em mudar muito, pensava em mudar apenas o mundo. Não saberia explicar a causa das tardes trancada no quarto estudando história, treinando a caligrafia e rodopiando com Legião Urbana. Nem eu esperei que fosse me tornar tão humana.
Desculpe, mãe, a senhora também não pensou nas consequências ou exitou me por no mundo, este agora é meu mundo, o mundo é meu, mãe, o mundo é seu, pai. O mundo é nosso. Eu quero sim, mudar o meu mundo.
Lembra, mãe, lembra da primeira palavra? 9 meses e já tinha total autonomia para impor minhas opiniões. Quem se lembra de quando minha irmã nasceu e eu queria construir uma fortaleza em volta do berço, eu só queria que ela visse que para ela seria bem diferente de mim. Quem se lembra das minhas fortalezas?
Lembra-se da vez que comecei a ler, 4 anos e já protestava com pessoas que não se levantavam para idosos nos ônibus.
Lembra das minhas viagens, mãe? Lembra que me achavam louca? - me acham louca. - Querem me parar, querer tomar meus livros e minhas bandas, me interditar com remédios, tudo por causa do mundo que criei? É melhor do que esse que deixaram para mim.
Desculpe, mãe, eu sei que estou errada, mas a tua semente virou árvore e antes que morra, darei frutos. Bem diferentes, me deixa sair, vou só até a biblioteca, destranque meus livros de política, devolva o Pequeno Príncipe e a Constituição.
O meu mundo é mais florido, me deixe sair, só vou ao parque, só quero alimentar os peixes, quem sabe me jogue na água com eles.
Meu mundo tem diferenças, mas todos lá aceitam, acham mesmo que só eu moro nele?
Eu já sei fazer minha comida e aprendi a me virar. Me deixa dar uma volta, vou voar. Só vou até a cafeteria.
Deixa que a vida se conserta, eu gosto do desconcerto e do certo. Gosto das luzes de natal, e tenho que dizer: Nem acho emocionante o nascimento de cristo. Ele nasceu mesmo? Tem livro pra isso?
Mãe, me leve aos campos de flores e me deixa correr por lá. A senhora mesma não me leva até a biblioteca, ao parque, compre comida para meus peixes? Podemos comprar café, eu sei que ama café, tanto quanto eu.
Desculpe, mãe, se dou desgosto, é que gosto do estrago e tenho gosto de ver o concerto do mundo de concreto que criaram para nós. Essa juventude toda, viu, mãe, não estou louca, eles são do mesmo mundo que eu. E sabe o mundo que herdamos de vocês? Estamos mudando, afinal, esse mundo é pequeno de mais para as constantes revoluções que acontecem dentro dos nossos corações.
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