A razão do eu.
Nunca soube escrever diretamente, nunca soube dar nomes aos sentimento e autoria aos meus textos, personagens para minhas crônicas, nunca soube me assumir. Ah, acho que não faz meu tipo. Mas não deve ser difícil, vamos falar de mim: é tão ridículo olhar para o pouco de vida que vivi e ver o quanto fiz e deixei por fazer. Sou um fracasso em questões de amor e uma sonhadora em questões de felicidade. Criei o mundo só meu, meu rio de café, meu mar de chá, minha cama de livros, meu travesseiro de poesias, meu príncipe é o meu gato, meu cachorro é digna montaria, e dos meus amores fiz vassalos. Nas minhas aventuras matei dragões, escalei montanhas, achei tesouros, os mesmos tesouros que com orgulho chamo de amigos. Procurando ser pequena ao ponto de ser cuidada e grande ao ponto de me cuidar e virar.
Ainda que por mim só, vivi a morte, e ressurgi das cinzas. Grande fênix, pequeno anjo.
Lobo das montanhas, lobo cinzento, solitário dentro da alcateia, filhotinho de lobo, tropeçando nas patas e mordendo a língua por não saber o que e hora certa de uivar.
Alguns arrependimentos, coisa de humano, coisa de bicho, coisa de eu. Esse eu que nunca soube escrever ou dar nome, esse eu de várias fazes, eu indo embora, eu chegando, eu logo ali, eu sendo feliz e lamentando.
Esse eu misterioso, de vida feito livro aberto, o eu incompreensível dentro da própria concepção.
Perdoem-me interromper um mundo de amores, de livros e boas prosas com meus poemas e textos de boteco, mas não nego bebedeira, não nego poesia e sempre estou chegando perto da saideira.
Sempre por aí á procura do que achei, á procura deste eu tão ridículo que vós escreve, deste eu tão amável que me nego ser. Sempre querendo saber quem estraga a minha vida, quem me trás bebidas, quem arranja meus amores, quem destrói minha sorte, sempre querendo viver a vida que não tenho e entendendo a razão de estar por aí, jogada, sentada na montanha uivando para a lua, é que o lobo que tanto prezo e desprezo, a coisa terrível que tanto enojo e que tanto quero manter viva, a razão da minha vida, a primeira e única razão desta adorável e deprimente vida é quem vós escreve sempre que dá, a razão da agonia e do prazer, da doçura e da sedução, a razão e a inspiração disto tudo é a autoria da minha vida, a qual escrevo e quem escreve, esta mesma, a quem chamo todo santo e endiabrado dia de: Eu.
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