Segura as tuas dores e vai


“Quando então suas dores forem grandes de mais ás inverta em amor e joga pelo mundo”
Meus dias passados, meus meses até, todos num canto do meu quarto, tudo ali mesmo sendo avaliado, tudo cansando de mim, e eu cansada de tudo. Devo ter chorado um pouco á mais do que esperei, os lenços acabaram e o vinho também. Acordei como se o mundo estivesse prestes á acabar e voltei a dormir. Talvez eu me arrependa das coisas que não disse e tenha acidentalmente subvertido o nosso amor, o apenas meu, amor.
Depois de perder a hora dormindo e sonhando e pesando a medida sentimental do vão em meu peito, levanto e vou ver como vai o Sol. Sol este, que para mim tem brilho fosco, nada brilha mais que teu sorriso, mesmo que seja tão raro enxergar as curvas de felicidade. Felicidade esta, que desconheço desde que perdi o teu luminoso sorriso. Lembro-me como se fosse ontem da primeira vez que vi teus olhos opacos. Não me esqueço do jeito sem graça de dizer que realmente foi um prazer ter me conhecido. Não se engane querido, o prazer é todo meu.
Ao sair da minha torre e sentir o dia atravessar minha pele e transparecer o meu olhar, vi que o Sol não estava, o dia estava cinza. Não tinha nem a mesma graça, por incrível que pareça me agradam mais os dias assim, dias cinzas, chuva e um pouco de melancolia pairando ao ar. Ar este, que faz algum tempo tem o teu cheiro.  No ar, junto da melancolia voava uma borboleta, tão graciosa, dançava entre a minha agonia como uma bailarina dança ao som de Mozart, como se o mundo realmente estivesse ao fim, mas como se amanhã tudo já estaria em seu lugar.
“Já vi o mundo acabar algumas vezes, e na manhã seguinte estava tudo bem.”
Quase chorei, mas segurei, o espetáculo teria que continuar, coloquei-me em cima do meu absolutismo interno e me vesti de coragem, sair de casa já é difícil, sem você se torna algumas vezes pior. Não vou, mas sorrio e não reclamarei de algum dia me sentir sozinha de novo.
Vou sumir daqui, sumir de mim, de você. Rever os meus conceitos e transformar tudo em amor, jogar pelo mundo e tentar, ao menos algumas vezes ouvir aquela música e não chorar. O mundo acaba agora, mas amanhã quando eu me levantar e abrir a janela pra sentir o sol “tudo estará perfeitamente errado e bem”.

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