A menina que não quer(ia) crescer.

Eu:
Nunca tive passarinho. 
Nem nunca tive um ninho.
Mas, quem sabe, amorzinho, eu melhore e não queira mais estar sempre sozinha.
Eu, aqui, tão pequenininha, quero crescer e pegar as frutas lá do auto.
Eu quero, vovô, quero pegá-las sem escalar os ombros do senhô. 
Quero conseguir aquelas folhas verdes e as marrons pra colocar no meu livro. 
Quero ter pernas mais longas, mamãe, e ficar bem no seu vestido. 
Como eu quero ser adulta e parar de imaginar que sei voar. 
Quero ter um passarinho.
Quero ser um passarinho! 
Quero mesmo, de verdade, ter um amor como um ninho, tem que ser quentinho apertadinho. 
Quero vinho. 
Quero carinho.
Me sinto mais sozinha agora que me sinto maior.
Se eu conseguisse colher aquelas pitangas...
Se eu soubesse que crescer é ruim, eu não ia querer, mas a gente só sabe depois que faz.
O mal que isso faz, desfaz sorriso de menino. 
Essa coisa de ter ninho é pra quem sabe voar até a o topo.
Eu só me sento na raiz. 
É isso, quero ter uma raiz.
Quero enraizar num lugar aí. 
Quem dera eu ser uma árvore com raiz grossa e galhos altos. 
Aí, eu seria grande e teria frutas, folhas e flores.
Tudinho pra mim.
Teria ninho, e um montão de passarinho.
Quero ser um passarinho.
Quero voar.
Não preciso crescer, não quero crescer, só preciso saber subir naquela árvore.
Só preciso me sentir dona de mim.
Quero ser dona do mundo.
Eu sou a dona do meu mundo.
E como dona deste mundo declaro que as árvores tem que jogar as frutas e folhas pra mim.
Á partir de hoje, passarinho só no ninho.
Gaiola não faz ninguém feliz!
Não quero mais voar, mas quero ver o céu e imaginar.
Assim, quanto mais eu imagino, mais eu escrevo.
É que não dá pra digitar os poemas e textos com penas ao invés de dedos.
É uma pena não voar, mas tenho a Terra inteira pra explorar e muita coisa pra contar.
Os passarinhos vão cantar, eu vou contar.
Contar histórias, claro, números não são pra mim.
Só vou contar o número de bolinhos de chuva que a vovó vai fazer na hora do chá.
Só quero contar, no futuro, pros meus filhos que nada é melhor que um ninho pra voltar.
Um amor pra gente cuidar.
E mil historietas de passarinhos, árvores e carinho pra espalhar.
Até que gosto de ser pequena, assim vejo com perfeição das coisas da vida que são pequenas também.
Essas coisinhas, tipo os bolinhos, os passarinhos e seus ninhos de folhas e galhos.
Folhas e galhos da árvore de pitangas, da de acerolas e da de ameixa.
O meu chá está fervendo, acho que agora é minha deixa.
Vou-me então, deixo aqui meu coração.
Não é um coração grande, mas tem muita história.
Mas, só contarei histórias depois de contar os bolinhos. 

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