Reino (não) encantado de amor
Ah. Mas é claro que fui burra, não tente amenizar, o meu amor não sustentaria nós dois por muito mais tempo, amor não se divide, multiplica. Não se pode ser egoísta quando se trata de amor. Amor em si já é egoísta. É, meu querido, acho que acabou, não o que eu sinto, meu sentimento persiste em mim na possibilidade de reaver o que nunca aconteceu. Meu pai tem razão quando diz que sonho de mais e vivo de menos. Te sonhei tanto, te fiz super-herói, te fiz divindade e perfeição, fiz dos teus braços castelo, castelo este em que não poderei morar, castelo que comprei antes da existência e hoje vejo: foi um péssimo negócio.
Eu estava lá, eu me entregava e sorria para qualquer palavra tua, imaginava várias coisas e te incluía em tudo, te contava e você aprovava. Como aprovava e fingia sonhar comigo, nem se interessava? Minhas amigas tem razão: é de mais para mim.
Eu em minha singela pequenitude e delicadeza, me prendendo na torre sobre guarda de um ogro, dando comida e carícias á ele e descobrir que uma pequena plebeia nunca teria chances, o ogro quer uma grande mulher, quer uma princesa e a plebeia que enxerga toda a realeza do ogro se cala e foge pela janela, evita mais sofrimentos, é compreensível. Eu sempre vi o príncipe que se esconde em você. Sempre admirei a forma rude e linda de ser. A maldade tão boa dentro do teu coração e o olhar opaco, que eu já disse, me seduz.
Eu dava valor aos chás da tarde imaginários, aos sanduíches e aos biscoitos. Eu realmente queria fazer fondue e ver seus filmes favoritos. Eu iria me entregar e te fazer feliz.
Mas, meu querido ogro, você quer uma princesa, e eu não posso ser princesa, princesas estão sempre lindas, com seus cachos e sua dignidade em coroas. Princesas não lutariam com dragões para salvar um príncipe, não empunhariam uma espada ou fariam parte do teu jogo, princesas precisam ser resgatadas e eu luto pela honra de me salvar.
Nesse reino - não mais encantado - não tem espaço para vivermos assim, através desta carta, lhe digo, meu nobre cavaleiro, vou-me embora, fugida pela janela, pois o teu coração me manda embora, mas teu orgulho não me deixa ir, vou indo, não me esqueci de nada, não me esqueci do nada que fomos e do tudo que sonhei, mas vou embora, vou matar dragões, colher flores do campo e tomar chá, um dia serei princesa e nesse dia, você será ogro de mais para minha nobre e honrosa pequenitude.
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