A personagem ''eu''

Quem me dera ler tanto á ponto de fantasiar-me de minhas leituras, assim como Dom Quixote De La Mancha, enfrentar os meus dragões, mas quem sabe de tanto me fantasiar não tenha eu me criado assim, e minha realidade não pareça fantasia á olhos alheios. Quem me dera o sarcasmo de ser feliz até na hora de minha morte, até depois dela, assim como Bras Cubas. 
Quisera eu, ter o os olhos de cigana oblíqua e dissimulada de Capitu. A valentia de Capitão Rodrigo. 
Queria mesmo ter a esperteza de Emília, aquela levada e amada bonequinha de pano. E que tal viver as travessuras inocentes do Menino Maluquinho, pudera eu. 
Quem me dera a competência maléfica, digamos assim, de Mandrake.
Aquele humor freudiano de Bagé. 
E pudera ainda ter aquela licena poética de Iracema, aquele ar de poesia no viver. 
Eu muito quis e pouco fiz, muito li, portanto digo que pouco escrevi.
Tanto quis ser personagem, acabei como escritora.
Muito amei, muito odiei.
Ri sem vontade, chorei escondida.
Amei pela metade, planejei toda uma vida.
Me encaixei aonde a vida me deu espaço, invadi aonde não fui chamada.
Me dei o desgosto de ter orgulho.
Me casei com alguns livros, me separei do mundo.
Me cantei e encantei, me fascinei com todas as letras que dançaram na minha música, musiquei toda uma vida. Tanto quis compôr e acabei um composto de ardor. Tanto quis amor, e acabei sendo de tão amável, uma solitária. Quem dera eu aceitar o meu ser, quem dera ser eu, talvez eu tenha vivido de mais.
Quem me dera não só escrever, talvez seja que de tão fantasiada, eu tenha me realizado.
De tão escritora, acabei como personagem. 


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